Parte de mim é você… E a outra é saudade.

E eu amei alguém…

Na verdade, ainda amo… Vez ou outra, a saudade me incomoda um tanto e os olhos se veem marejados.

Aos quatorze ou quinze anos tive bronquite asmática. O médico ordenou que todos os nossos animais fossem embora. Lembro-me de ter saído do consultório brava, indignada e dizendo à minha mãe, que era eu quem deveria me mudar… E não eles. E se preciso fosse, eu me sacrificaria.

Assim cresci… Rodeada de cachorros, gatos, porquinhos da índia, peixes e não poderia ter adquirido um sentimento adverso. Aprendi a gostar muito mais deles do que de pessoas; incluindo a mim mesma, pelo simples fato de estar entre eles.

E assim, entramos uma na vida da outra.

Era a coisinha mais linda, doce, encantadora e meiga que alguém poderia ter encontrado no mundo… Encontramos-nos.

Não consigo lembrar-me do que havia saído para fazer na rua, mas me lembro de tê-la visto correndo atrás de uma borboleta… Vi-me encantada, boba e apaixonada… E sempre que me recordo, um sorriso nasce junto.

Não sei se ela era de rua, pois estava bem nutrida; nunca foi bolota. Os anos que passamos juntas, ela manteve sempre a mesma silhueta. Parecia até que desfilava… E não era porque não se alimentava.

Acho que ela pertencia ao senhor que me disse que poderia levá-la ao ver me embasbaca. Pergunto-me se ele a rejeitou por ser cachorro ou pior ainda, se por ser do sexo feminino.

… E não entendo. O ser humano gosta de outro que é capaz de cometer todas as atrocidades possíveis com ele, mas despreza um ser de coração tão puro… Juro que não entendo.

Pequenina, peguei a em meus braços e a levei para casa. Havíamos acabado de nos mudar e como saímos de um apartamento, tínhamos apenas o pequeno Luke, que vinha conosco desde os tempos da Vila Madalena.

Cheguei em casa já aos prantos, perguntando se poderia ficar com ela… Não sei se minha mãe não resistiu às lágrimas, ou a ela, mas permitiu que ficasse.

Providenciei ração, roupas, itens de banho, cama e tudo mais que ela precisaria.

Quênia foi o nome escolhido para ela. Loura e delicada… Minha!

Mas poderia ser de qualquer cor que ainda assim, a quereria.

Tiveram broncas, xixi, chinelo comido, bronca, xixi, calça comida, bronca, xixi… E fomos indo. Ela fazia e eu limpava… Tudo bem… No fundo, não me importava.

Em troca, recebia muito carinho, chamego e amor.

Com o tempo, foi aprendendo e suas necessidades eram feitas do lado de fora de casa e ela se tornou uma mocinha muito comportada.

Com o tempo, também ganhou duas novas companhias. Penélope e Meg. O circo estava armado. Foi lindo o cuidado que teve com as duas; meio maternal, mesmo sendo a mais frágil… E o único que conseguia colocar ordem na casa, era o Luke… O dominante. Mas elas tocavam o terror.

Está certo, vez ou outra recebia reclamações de que ela só queria ficar dentro de casa e até roubou um pedaço de carne que estava em cima da pia.

Claro, saí em sua defesa; não admiti que dissessem que tinha roubado nada. Disse-lhes que ela não sabia pedir e como estava lá e não tinha ninguém, que havia pegado. Simples assim.

Está era a minha função, lhe proteger… O problema foi que eu falhei…

… Falhei exatamente quando não deveria.

E paguei o preço.

Meu coração estava partido, em pedaços; estava em uma fase em que meu coração doía tanto, que era impossível enxergar além da minha dor. Fui egoísta ao pensar apenas no meu umbigo.

Lembro que tivemos visita, e só depois de um tempo, me dei conta da sua ausência.

Mas… Era tarde.

… Ela já havia sido envenenada… Sabe se lá Deus há quanto tempo.

Logo ela que era tão cuidadosa ao aceitar qualquer tipo de coisa.

Por que…???

Dói muito lembrar… Escrever então… Foi difícil.

A levamos ao veterinário quase que de imediato, mas… Não deu tempo.

…E o sentimento não poderia ser diferente… Raiva…

Por que ela? Por que comigo? Por que…?

Difícil compreender porque tudo o que me é mais importante sempre se vai… Sempre me é tirado.

Chorei por dias intermináveis… E chorei ainda mais, quando tive o desprazer de atender à ligação falando da sua cremação.

Impossível esquecer…

Filha linda… Saiba que sinto sua falta todos os dias.

Você foi a coisa mais valorosa que tive…

Desculpe pelas broncas, às vezes por ter lhe batido, por ter lhe faltado… Desculpe por qualquer coisa que eu não tenha feito por você.

Você não foi apenas uma das coisas que eu mais amei… Você me fez imensamente feliz…

… E eu sei… Em breve, farão dez anos da sua partida, e eu ainda não estou pronta para deixá-la partir, mas deixarei…

De todas as dores que carrego comigo, a maior delas foi perder você.

Dizem que éramos exatamente iguais; criador e criatura… E talvez seja por isto que ainda doa tanto.

Minha caçadora de ratos, meu ser mais delicado, minha menina… Parte de mim ainda é você… E a outra é saudade!!!

Desculpe… Por tudo…

… Principalmente por não ter dito o quanto a amava.

Sou muito feliz, por ter sido agraciada em crescer com animais… E lembro com muito carinho de cada um deles.

O texto foi escrito para a Quênia, mas é dedicado a cada um de vocês: Laica, Polly, Johnny, Poppy, Larissa, Pitty e Robucho, Astrogildo, Astrogilda e o Astrogildinho, Cassandra… Khelf… Dog… Ralph… Aprendi a beça com cada um de vocês.

Obrigada.

… E continuo odiando e desprezando o tal do amor por machucar tanto. E a vida.

CintiaOlimpio

CintiaOlimpio

Eu sou uma misturinha de tudo...
Loucura, sensatez, bagunça e lucidez...
Tem um pouco de mim aqui... Outro tanto acolá e muito espalhado por aí.
Sou uma mistura de sol, vento, brisa e mar...
Vezes calmaria e outras ventania... Menina.
Apaixonada pelas palavras, pelos sorrisos alheios, por mãos e por costas... Por mentes brilhantes também.
Devoradora de livros e um tanto desequilibrada quando se trata de natureza, esportes radicais e liberdade.
Escolhi os números como profissão, mas tenho descoberto que posso ser bem mais do que isto... Posso me tornar o que eu quiser... E provavelmente, me tornarei um tanto de outras coisas!!!
CintiaOlimpio

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